1, 2, 3

Lendo sobre literatura infantil (e os movimentos libertários da Irlanda. Sim) lembrei desse mini-conto que escrevi em 2008, ano que tive Redação 6 (única disciplina de português no jornalismo da UFSC) e minha imaginação estava meio fértil. É sobre um peixinho chamado Franz (porque na época eu achava que seria legal ter um peixe chamado Franz e outro Ferdinand) e o título pode ter sido um ode a Free Willy:

free franz

1. Augusto era um menino magrela, mas de bochechas especialmente salientes.

2. Franz era um peixinho dourado, que na verdade era alaranjado.

3. Não se pode dizer que Augusto e Franz fossem amigos. Augusto gostava de Franz; lhe dava comida e limpava seu aquário. Franz, no início, tinha medo de Augusto – aquele rosto redondo e fantasmagórico. Depois percebeu que o menino era inofensivo e passou a irritar-se com sua presença.

4. Augusto passava o dia na escola.

5. Franz passava o dia no aquário.

6. Enquanto Augusto corria pelo pátio ou se concentrava para aprender na sala de aula, Franz nadava de uma parede de vidro à outra. Até se cansar e flutuar bem no centro do globo d’água.

7. Franz pensava com o cérebro de alcaparra de um peixinho mas, mesmo assim, pensar sozinho 24h por dia, ao longo de vários longos dias, era muita reflexão. Mente vazia… Franz foi tomado por ideais de libertação. Passava os dias exercitando suas nadadeiras em nados circulares; gastava as noites traçando estratagemas.

8. Na manhã de sábado, o dia oficial de faxina no aquário, Augusto encontrou Franz boiando. Seus pequenos olhinhos fixavam o fundo transparente de seu pequeno lar.

9. A mãe de Augusto despejou Franz e a água na qual ele vivera sua última semana no vaso sanitário. Augusto jogou por sobre o que restara da comida de peixe, como uma homenagem. Com as mãos juntas atrás do corpo, fechou os olhos e abaixou a cabeça. Sua mãe deu a descarga.

10. Tubos, esgotos e vários ambientes desgradáveis depois, Franz descobriu-se olhando para o céu através do espelho d’água acima dele. A imagem era turva e esverdeada, como uma tela impressionista. Seu novo lar era repleto de lugares e aventuras a descobrir: garrafas naufragadas, sacos plásticos viajando na correnteza, oásis de espuma boiando por toda a parte. Franz estava livre. Estava no paraíso.

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Vôos

Aeroporto, fila de check-in, raio-x, cartão de embarque, instruções de segurança. Voar se tornou uma coisa tão burocrática. Ainda assim, eu só preciso olhar para fora da janela, mesmo que em solo, para sentir aquela euforia de sempre. A cada decolagem ainda sinto frio na barriga – daquele tipo de quando se está apaixonado, e não com medo.

Vindo de Porto Alegre hoje, lembrei dessa crônica (fragmentada, pós-modernismo de quinta fase do jornalismo), que fala dessas coisas estranhas de quem adora chá de aeroporto. É esquisito mesmo, isso que eu sinto. É o que senti lendo Vôo Noturno também. Só pode estar no sangue, por isso que, mesmo sem querer, essa crônica é uma homenagem ao meu pai:

Sobre voar*

Tentei recortar a silhueta da ilha no horizonte apinhado de prédios da capital paulista. As nuvens logo atravessaram o caminho antes de eu conseguir contar com precisão quantas construções daquelas caberiam na área total de Florianópolis.

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Em meio a pessoas correndo e avisos de embarque imediato, saí um metro além da porta do aeroporto para respirar o ar da cidade. Me pareceu romântico: a idéia veio com meu sentimento caro à metrópole. Ali estavam reunidos os fumantes, mas não foi essa fumaça que inspirei. Ao voltar para o ambiente fechado senti a tolice em querer encher os pulmões de tal atmosfera cinzenta.

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Marquei em meu bloquinho enquanto comia o sanduíche do serviço de bordo: ao longo de 17 anos (desde os meus dois), foram quatorze vôos internacionais e vinte domésticos, salvo engano. Deixei de fora escalas na Cidade do Panamá e passeios de teco-teco; incluí o vôo no qual então me encontrava.

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“Manche e pedal, manche e pedal” – ouvindo essas palavras balancei as asas do Luscombe, o avião do meu pai, como que acenando para alguém perdido nos cam-pos abaixo. Alguém acredita que já pilotei de Rio do Sul ao litoral? Claro, sem pouso nem decolagem. Só de olho no nível e no altímetro, brincando de acenar.

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Na fnal para o pouso, pensei sobre a possibilidade de explodir em algum galpão do aeroporto. Nos vôos internacionais, geralmente me imagino caindo no oceano. Mas não tenho medo. Desde criança brigo pelo lugar à janela, e o consegui no meu caminho ao aeroporto de Confns. Olhei para o horizonte de certa forma belo, porém o mesmo horizonte anuviado da viagem toda. Não vi prédio algum; a pista realmente fca nos confns.

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Assim como me apaixonei por São Paulo em quatro dias, num dezembro passado, apaixonei-me por aeroportos e aviões em dez viagens, com direito a narração das atividades dos flaps e do recolhimento dos trens de pouso, na voz de meu pai. Amo decolar. Adoro estar sozinha em um aeroporto. Só não tenho coragem de pagar dez reais por um café com pão-de-queijo; guardo os biscoitinhos da companhia aérea para esses momentos.

* 2008, na revista Ponto e Vírgula, edição impressa #1 (and only)