desapego 101

Se mudar para outro país requer desapego. Parto para os Estados Unidos na semana que vem com duas malas, contendo todos os pertences que vou levar dessa vida para aquela. Claro que ficam aqui caixas dos meus bens mais preciosos: livros, artigos de decoração, utensílios de cozinha. Mas não fazia sentido para mim deixar um guarda-roupas cheio de peças pegando mofo durante dois anos. Peças que, provavelmente em breve, não vou mais querer usar.

Para me livrar de muitas dessas coisas (eu costumo fazer faxinas frequentes no armário e já tinha separado algumas que já não serviam mais ou que estavam abandonas) e arrecadar uma graninha para equipar minha nova casa em Chicago, organizei um brechó. Me baseei em brechós de troca que fazia com as amigas e em eventos que vi algumas meninas organizando na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Deu super certo!

lojinha organizada

muchas cosas

cabides iguais, reparem.

rolou até um cafezinho com bolo

Além de juntar um bom dinheiro, foi super legal ver pessoas saindo felizes com peças que eu não usava mais. As roupinhas vão ver a luz do dia e ser muito melhor aproveitadas por outra pessoa.

Então fica aqui meu apelo: troquem, vendam, doem! Vamos colocar essa rouparada esquecida para circular. Pra ajudar, compartilho aqui um pouquinho da minha experiência:

Formas de desapegar

– Organizar um brechó:

Essa foi minha forma preferida até agora. Tanto na versão de troca quanto de venda. Em Florianópolis, minhas amigas costumavam marcar brechós de troca em que todo mundo levava suas peças e cada uma ia escolhendo o que queria. Consegui coisas lindas nesses encontros. E ainda por cima foi divertido ver as meninas, fazer um lanchinho, colocar  a fofoca em dia…

O brechó de venda deu um pouco mais de trabalho para organizar. Mas eu, que adoro planejar e arrumar coisas, fiz isso tudo muito feliz. Tem que definir os preços, colocar etiquetas nas peças, conseguir troco para o caixa, pensar em como as pessoas vão levar as peças para casa, ver onde vai ser o “provador”, organizar as peças de uma forma que fique fácil para vê-las… Eu praticamente montei uma lojinha, ainda assei um bolo para as convidadas e selecionei playlists para a trilha sonora. No fim foi super divertido! E acho que as meninas curtiram também. O principal para mim era colocar preços bem baixos, para fazer valer a pena para quem comprasse. Qualquer coisa que eu cobrasse já estaria no lucro (considerando que a outra opção era dar tudo), então era importante para mim que o comprador tivesse vantagem também. Procurei cobrar no máximo $40 (em casacos bons de inverno) e manter a grande maioria das peças de $5 até $20.

Dica: Divulgue! Crie um evento no Facebook e poste fotos das roupas com preço; mande mensagens para as amigas; imprima mini cartazes e espalhe no trabalho, na universidade, etc. Eu pensava até em criar promoções para quem levasse uma amiga junto, mas na correria não deu tempo de bolar isso.

– Vender em comunidades de Facebook:

Lembram quando contei da minha experiência vendendo um shorts pelo Facebook? É uma forma legal de se conectar com pessoas que você não conhece. Mas é melhor para quando você tem uma peça específica que quer vender, na minha opinião. Esse mês entrei em uma comunidade de Rio do Sul e postei várias peças, no fim estava enlouquecendo com todos os comentários. Saí um dia para levar peças para várias meninas e a maioria não deu certo. Aí meio que cansei e desisti. Você tem que pensar nessa logística de como entregar as peças antes de vender nessas comunidades. Uma forma de aproveitar essa opção é combinar um brechó através da comunidade, assim você amplia o círculo de convidadas e concentra as vendas em um momento e um lugar só. Dá até para marcar uma “feirinha”, com várias pessoas levando suas peças. Na UFSC o pessoal costumava marcar esse tipo de coisa em lugares públicos, o que achei legal.

– Vender pela Internet:

A Internet é um universo maravilhoso onde distâncias desaparecem, mas vale lembrar que não dá para mandar encomendas anexas em e-mail. Para vender na Internet você tem que pensar em como vão funcionar os pagamentos e como vão funcionar suas entregas. Existem várias formas, claro, e eu não sou expert nelas… Mas vou contar minha breve experiência.

Para facilitar a vida, usei a plataforma do enjoei.com para vender alguns desapegos. A ideia do site é muito legal – uma plataforma feita especificamente para vender as coisas que você não quer mais, sejam elas novas ou usadas. Ele tem várias vantagens: eles coletam o pagamento assim que o comprador faz o pedido e só liberam para você quando o pedido for recebido, dessa forma as duas partes se sentem seguras. E você pode optar que o site recolha o valor do frete do comprador — eles têm um convênio com os Correios e te mandam a etiqueta para colar no pacote, assim você não precisa pagar nada para mandar. Mas também tem suas desvantagens… a comissão do site é altíssima, 20%, e é cobrada uma taxa de 2,15 pelo anúncio (só quando o produto é vendido). Então você acaba tendo que cobrar mais caro que cobraria normalmente. No fim das contas, funciona super bem se você souber o que está fazendo.

Quando eu não soube o que estava fazendo: eu tinha um óculos que estava vendendo no meu brechó a R$5. Achei que ninguém ia querer pagar o frete mais caro que o produto, então coloquei o preço de R$ 20 com frete por minha conta. Vendeu. O valor a receber, descontando a comissão e taxa, era de 13,85. A menina que comprou era de Minas, e quando cheguei no correio descobri que o valor do frete era R$ 20. Ou seja: gastei dinheiro para me livrar do óculos. Minha lição nisso é: NUNCA ofereça frete grátis. 1 – porque você vai pagar comissão em cima do preço do frete, 2 –  porque você pode acabar saindo no prejuízo, e 3 – porque o frete pelo site sai inclusive mais barato para o comprador, por causa do convênio deles.

Claro que existem outras formas de vender na Internet: mercado livre, ebay, etsy (só se a peça for vintage = com mais de 20 anos), etc… ou até mesmo criando seu próprio site. É uma questão de pesquisar.

– Fazendo uma doação:

Não é porque dá para ganhar um dinheiro vendendo roupas que a gente deve parar de doá-las. Sempre tem algumas peças quentinhas que vale a pena separar para a campanha do agasalho, e tudo aquilo que sobra dos brechós de venda ou troca pode também ser doado depois. Eu gosto de doar para brechós beneficentes, onde eles vendem as peças a valores super baixos para pessoas que precisam delas e aproveitam os lucros para outra causa. Ou seja: a doação tem benefício duplo.

 

 

Quem tiver outras dicas para compartilhar, deixa um comentário (; Vamos devolver as roupas ao mundo, gente ❤

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chicago bound!

Não quero nem fazer as contas de quanto tempo passei sem postar por aqui. E um dos motivos do sumiço é o assunto deste post: estou me mudando para Chicago!

Em abril descobri que fui aceita nos mestrados de escrita criativa nos quais me inscrevi nos Estados Unidos, e desde então foi uma maratona de passaporte, visto, matrícula, etc, enquanto eu terminava de escrever o livro sobre a história do meu avô e resolvia pendências por aqui. Mas deu tudo certo e na próxima terça-feira embarco rumo à Windy City. No dia 27 de agosto começo o MFA Writing na School of the Art Institute of Chicago.

Então vou usar esse espaço para compartilhar as aventuras na nova vida, fotos, descobertas e receitinhas que vão surgir por lá. Espero que gostem dos novos ares!

tarde chuvosa

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Hoje terminei o trabalho cedo. Enquanto chove lá fora, vim para a cozinha comer uma cuca, tomar chá e ler (digo, ver fotinhos em) blogs.

Atividade mais feliz com a minha nova caneca (que veio substituir a de vaquinha que tem sete anos e está rachada há uns três):

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definições de amor

st. james park, london, 2010

 

#1 acordá-lo com panquecas e café
#2 dividir os cadernos de um jornal standard no fim de semana
#3 abraça-lo pelas costas enquanto ele faz alguma coisa pela casa
#4 gostar das suas brincadeiras bobas
#5 assistir aos programas ruins de televisão que ele gosta
#6 dar-lhe um beijo no ombro enquanto andamos pela rua
#7 estar tão feliz que não sinta essa constante necessidade de fugir

folga

Em tempos pós-eleições, um fim de semana inteiro de folga é raridade, que precisa ser bem aproveitada. As melhores partes do meu envolveram comida, logicamente. A começar por sábado de manhã, com minha forma infalível de começar bem o dia:

Eu tenho sido infinitamente feliz com o maple syrup que meus pais me deram. Vou ter que dar um jeito de comprar mais quando acabar (e colocar nessa garrafinha, que é linda. Mostro ela um dia).

Depois disso só fui comer quando Marcone, Mauren, Bianca e eu chegamos na praia de Ingleses, estendemos as cangas na areia, abrimos uma bolsa térmica da RBS e dela tiramos um lambrusco e muitas comidinhas. Com direito a taças, guardanapo de pano e tudo mais. Acho que causamos sensação.

O cardápio: melão. abacaxi, damascos, ameixas, uvas, queijo brie, queijo gorgonzola, copa, patê de salmão defumado, geléia de damasco, molho de pimenta tabasco e baguete integral. Ficamos brincando de misturar as coisas e descobrir combinações.

Domingo não teve emoções gastronômicas, só um pedaço de empadão da mãe de almoço (<3) e um café gelado com quindim de nozes (genial, não?) antes de voltar pra praia, dessa vez com um livro e fones de ouvido. Filinha básica pra voltar pra casa, só pra dizer que começou de verdade a temporada.

casa de praia

Sem título

Eu sou uma pessoa que gosta de frio. Minhas melhores lembranças são de verde e branco; campos verdes sob o sol, naqueles dias de luz gelada, e um cavalo tordilho e velho com o qual me apaixonei por montar. Naquela época, passávamos a Páscoa na fazenda, em abril, e acordávamos com a geada. Saudades.

Mas quando passa setembro, com ele meu aniversário, geralmente debaixo de chuva, cresce dentro de mim um querer veranil. Uma vontade que ignora a real natureza dessa estação, que é de fazer suar na rua e chegar a todo lugar com o rosto vermelho e escaldante. Que não se lembra do trânsito e das praias lotadas e dos carros passando com música ruim. Que esquece que pela primeira vez moro em uma casa sem janelas – apenas uma porta de vidro virada para o sudoeste. Uma pequena estufa.

Não, quando chega essa época, eu sinto uma nostalgia por um verão que na verdade nunca tive, mas que parece uma memória distante, difusa, calorosa. Os dias azuis e amarelos… É uma sensação de liberdade, de que eu posso me apaixonar a qualquer momento, de que qualquer coisa é possível e de que toda tarde pode ser perfeita. Nunca é assim, mas no ano seguinte esse calorzinho volta ao meu estômago enquanto eu coloco sandálias e saias estampadas.

Talvez porque pela maior parte da minha vida verão significava férias. Talvez porque eu assisti a muitos filmes adolescentes. Mas por mais que não esteja na minha natureza, eu, uma pessoa que prefere sentir o ar gelado cortar o rosto a uma baforada de vento quente, o verão me encanta. Talvez por isso mesmo.

Ou talvez meu verão também esteja no passado, quando passávamos os meses quentes em uma pequena casa de madeira em Canto Grande. Não sei como é hoje, mas naquela época tínhamos que passar com o carro pela praia para chegar à rua, onde nossa casa era a primeira. Mesmo no verão era tranquilo. Isso é o que não suporto ao ir à praia, todas aquelas pessoas e o evento social que se forma em torno disso. As cervejas, os bronzeadores, as marcas de biquíni. E nem me fale em fazer uma trilha, ainda mais no calor,

Eu gosto de praia. Praia sendo o local onde uma faixa de areia encontra o mar. Eu gosto de tomar banho de mar. Eu gosto de ler com ele no horizonte.

A verdade é que provavelmente minha fantasia do verão só vai encontrar a realidade quando eu o passar daquele jeito, como na infância, numa casinha a alguns metros da água, em um lugar tranquilo e sem muita gente, de mar limpo e vista bonita. Talvez minhas melhores memórias recentes de verão sejam nos Ingleses, em algum dia que caminhamos descalços a quadra da casa da Ju até a praia. Sempre muita gente, mas parecia não importar. Lembro da última vez, em que tínhamos só alguns minutos e a água estava incrível.

Aquele dia foi uma festa de despedida, despedida de várias coisas, inclusive da casa. Um lugar que viu danças e jogos e conversas e bebedeiras e não-amores e alergias e colchões espalhados pelo chão, em verões e invernos. Banhos no chuveiro do lado de fora, perto das pitangueiras. Churrascos e melancias. Cochilos na rede. É verdade, eu tive pedaços daquele verão. Em mais uma casa para deixar saudades.

Inocência

por ewa ewa (flickr)

Quando eu era criança, lembro de me perguntar por que eu teria que amar um homem. E se eu me apaixonasse por uma mulher? Na minha concepção infantil, atracão física não era um fator. Eu imaginava que ia conhecer uma pessoa incrível, que fosse legal, que gostasse das mesmas coisas que eu. E eu não entendia como cada homem e cada mulher no mundo encontraria isso necessariamente em uma pessoa do sexo oposto. Me parecia uma matemática falha.

Esse meu pensamento tinha muito mais a ver com uma inocência infantil e uma tendência a questionar o óbvio do que com qualquer ideia igualitária ou de liberdade afetiva (não digo sexual porque não era essa a questão do meu dilema). Minha educação nunca abordou esses assuntos e, embora eu nunca tenha tido nenhuma inclinação homofóbica, aos 16 anos, quando passeei em uma parada gay em Montréal, no Canadá, aquilo era uma coisa que eu via com voyerismo, como algo exótico ao meu mundo de garota de cidade pequena — uma cidade onde muitos amigos meus, embora eu não os considere homofóbicos, ainda não conseguem nem falar sobre homossexualidade sem se contradizer ou tropeçar nas próprias palavras.

Acho que por ter saído desse lugar onde todo mundo parece ter os olhos fechados, onde as coisas parecem continuar iguais, essas questões sejam tão caras a mim. Lembro de uma amiga que me perguntou como se referir ao homem que estava em um relacionamento com um amigo nosso. Namorado, eu respondi. Não é só uma questão de preconceito, é de desinformação. Ela não é homofóbica, em nenhum momento seus sentimentos por esse amigo mudaram com a revelação de que ele era gay. Mas ela tinha tanto receio de não “usar o termo certo” que não percebeu que o relacionamento deste amigo era da mesma natureza que o dela com o namorado. Se fosse eu que estivesse com alguém, ela não hesitaria.

A questão é que, se você considerar essa desinformação em alguém mais jovem e impressionável, e tornar a pessoa gay alguém que não é um amigo próximo, é muito fácil nascer discriminação daí. É difícil achar dois assuntos que me entristeçam mais que esses, tratados em matérias do aliás do último domingo: homofobia e suicídio adolescente por bullying (o que muitas vezes é decorrente de homofobia). E o que esses adolescentes se perguntam é justamente isso: por que mereço tanto ódio? E duvido que os bullies sejam religiosos. Eles podem até ter tido uma educação conservadora, mas acho que a maioria simplesmente não teve uma educação de tolerância e igualdade.

Na semana da parada gay de Florianópolis, eu entrevistei a Selma Light — que começou trabalhando como drag quem em uma casa gay da cidade e demorou para assumir sua transexualidade, assunto que encontra ainda mais resistência do que a homossexualidade. A história dela, apesar de obviamente não ter sido fácil, é do tipo que me deixa feliz. Especialmente porque hoje ela conta tudo com um sorriso no rosto. Quando criança, sem se encaixar nem com os meninos nem com as meninas, ela teve uma psicóloga que a ajudou a lidar com o mundo, e até mesmo com seus pais religiosos. Diga-se de passagem, foi a mãe dela que a incentivou a se assumir como mulher muitos anos depois.

É uma pena que muitos adolescentes não tenham o mesmo apoio psicológico. Nem das famílias, que podem ser religiosas ou conservadoras, e talvez nem de profissionais qualificados para tratar o assunto (recentemente conversei com uma psicóloga formada que não sabia a definição de transexual, confundia com trangênero. Que educação é essa?). Não podemos ignorar essas questões. Nem a questão do bullying, seja contra homossexuais ou não, que precisa ser estudada e discutida. Tanto quem sofre quanto quem pratica bullying precisa de apoio, precisa de pais e professores que saibam lidar com isso. As pessoas fazem piadinhas, dizendo que nas gerações passadas não existia isso. Mas existia sim, e a comunidade jovem global formada hoje com a internet parece exacerbar esses problemas, dar mais espaço a eles. É uma coisa cruel.

Lendo os cartões manuscritos que adolescentes mostram um a um em vídeos no YouTube, dá para pensar que aquilo não é motivo para tirar a vida. Algumas coisas podem parecer pequenas. Mas todo mundo lembra como na adolescência tudo parece maior, mais intenso, mais insuportável. Me entristece tanto que esses jovens não puderam envelhecer um pouco para ganhar perspectiva. E que aqueles que causaram sua agonia tenham que aprender com o peso de uma morte sobre as suas costas. Eu realmente queria saber o que passa hoje na cabeça da pessoa que escreveu para Amanda Todd que ela deveria tentar o suicídio de novo, desta vez com sucesso. E eu espero que esse adolescente vá a um bom psicólogo.

A matéria da capa do aliás era justamente sobre a polêmica dos materiais educativos contra homofobia nas escolas. Nem vou entrar no mérito da discussão, já é óbvio que eu acho necessário falar sobre isso. Mas essas medidas são paliativas, é que nem sistema de cotas. Não resolve o problema na raiz. Precisamos aproveitar desde cedo a inocência das crianças que acham que se apaixonar não depende de gênero, ou que diferentes cores de pele são como diferentes cores de cabelo. Precisamos de uma educação que não seja baseada no politicamente correto, naquilo que se pode ou não dizer, e sim em um real sentimento de igualdade. E isso é ingenuidade minha, mas acho que a inocência é bem mais tolerante, e bem menos hipócrita.