gemas e claras

A Adri tava falando em carbonara ontem e lembrei que era uma coisa fácil pro almoço de domingo. Aprendi a fazer com o app do Jamie Oliver e só não faço sempre porque raramente tenho bacon em casa. Hoje não era exceção, mas tinha calabresa… good enough.

Eu não meço muito as quantidades… misturei duas gemas com o creme de leite, coloquei pimenta moída, noz moscada, queijo parmesão e sal (não muito, porque o parmesão e a calabresa são salgados).

A pira dessa receita é que você coloca o macarrão quente no molho e ele cozinha com o calor da massa. Eu geralmente acabo colocando a mistura um pouquinho na panela, mas se não fizer isso fica bem mais cremoso.

Aí entra o bacon/calabresa e taran! (:

E as duas claras que ficaram na minha geladeira? Viraram mousse:

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casa de praia

Sem título

Eu sou uma pessoa que gosta de frio. Minhas melhores lembranças são de verde e branco; campos verdes sob o sol, naqueles dias de luz gelada, e um cavalo tordilho e velho com o qual me apaixonei por montar. Naquela época, passávamos a Páscoa na fazenda, em abril, e acordávamos com a geada. Saudades.

Mas quando passa setembro, com ele meu aniversário, geralmente debaixo de chuva, cresce dentro de mim um querer veranil. Uma vontade que ignora a real natureza dessa estação, que é de fazer suar na rua e chegar a todo lugar com o rosto vermelho e escaldante. Que não se lembra do trânsito e das praias lotadas e dos carros passando com música ruim. Que esquece que pela primeira vez moro em uma casa sem janelas – apenas uma porta de vidro virada para o sudoeste. Uma pequena estufa.

Não, quando chega essa época, eu sinto uma nostalgia por um verão que na verdade nunca tive, mas que parece uma memória distante, difusa, calorosa. Os dias azuis e amarelos… É uma sensação de liberdade, de que eu posso me apaixonar a qualquer momento, de que qualquer coisa é possível e de que toda tarde pode ser perfeita. Nunca é assim, mas no ano seguinte esse calorzinho volta ao meu estômago enquanto eu coloco sandálias e saias estampadas.

Talvez porque pela maior parte da minha vida verão significava férias. Talvez porque eu assisti a muitos filmes adolescentes. Mas por mais que não esteja na minha natureza, eu, uma pessoa que prefere sentir o ar gelado cortar o rosto a uma baforada de vento quente, o verão me encanta. Talvez por isso mesmo.

Ou talvez meu verão também esteja no passado, quando passávamos os meses quentes em uma pequena casa de madeira em Canto Grande. Não sei como é hoje, mas naquela época tínhamos que passar com o carro pela praia para chegar à rua, onde nossa casa era a primeira. Mesmo no verão era tranquilo. Isso é o que não suporto ao ir à praia, todas aquelas pessoas e o evento social que se forma em torno disso. As cervejas, os bronzeadores, as marcas de biquíni. E nem me fale em fazer uma trilha, ainda mais no calor,

Eu gosto de praia. Praia sendo o local onde uma faixa de areia encontra o mar. Eu gosto de tomar banho de mar. Eu gosto de ler com ele no horizonte.

A verdade é que provavelmente minha fantasia do verão só vai encontrar a realidade quando eu o passar daquele jeito, como na infância, numa casinha a alguns metros da água, em um lugar tranquilo e sem muita gente, de mar limpo e vista bonita. Talvez minhas melhores memórias recentes de verão sejam nos Ingleses, em algum dia que caminhamos descalços a quadra da casa da Ju até a praia. Sempre muita gente, mas parecia não importar. Lembro da última vez, em que tínhamos só alguns minutos e a água estava incrível.

Aquele dia foi uma festa de despedida, despedida de várias coisas, inclusive da casa. Um lugar que viu danças e jogos e conversas e bebedeiras e não-amores e alergias e colchões espalhados pelo chão, em verões e invernos. Banhos no chuveiro do lado de fora, perto das pitangueiras. Churrascos e melancias. Cochilos na rede. É verdade, eu tive pedaços daquele verão. Em mais uma casa para deixar saudades.

Inocência

por ewa ewa (flickr)

Quando eu era criança, lembro de me perguntar por que eu teria que amar um homem. E se eu me apaixonasse por uma mulher? Na minha concepção infantil, atracão física não era um fator. Eu imaginava que ia conhecer uma pessoa incrível, que fosse legal, que gostasse das mesmas coisas que eu. E eu não entendia como cada homem e cada mulher no mundo encontraria isso necessariamente em uma pessoa do sexo oposto. Me parecia uma matemática falha.

Esse meu pensamento tinha muito mais a ver com uma inocência infantil e uma tendência a questionar o óbvio do que com qualquer ideia igualitária ou de liberdade afetiva (não digo sexual porque não era essa a questão do meu dilema). Minha educação nunca abordou esses assuntos e, embora eu nunca tenha tido nenhuma inclinação homofóbica, aos 16 anos, quando passeei em uma parada gay em Montréal, no Canadá, aquilo era uma coisa que eu via com voyerismo, como algo exótico ao meu mundo de garota de cidade pequena — uma cidade onde muitos amigos meus, embora eu não os considere homofóbicos, ainda não conseguem nem falar sobre homossexualidade sem se contradizer ou tropeçar nas próprias palavras.

Acho que por ter saído desse lugar onde todo mundo parece ter os olhos fechados, onde as coisas parecem continuar iguais, essas questões sejam tão caras a mim. Lembro de uma amiga que me perguntou como se referir ao homem que estava em um relacionamento com um amigo nosso. Namorado, eu respondi. Não é só uma questão de preconceito, é de desinformação. Ela não é homofóbica, em nenhum momento seus sentimentos por esse amigo mudaram com a revelação de que ele era gay. Mas ela tinha tanto receio de não “usar o termo certo” que não percebeu que o relacionamento deste amigo era da mesma natureza que o dela com o namorado. Se fosse eu que estivesse com alguém, ela não hesitaria.

A questão é que, se você considerar essa desinformação em alguém mais jovem e impressionável, e tornar a pessoa gay alguém que não é um amigo próximo, é muito fácil nascer discriminação daí. É difícil achar dois assuntos que me entristeçam mais que esses, tratados em matérias do aliás do último domingo: homofobia e suicídio adolescente por bullying (o que muitas vezes é decorrente de homofobia). E o que esses adolescentes se perguntam é justamente isso: por que mereço tanto ódio? E duvido que os bullies sejam religiosos. Eles podem até ter tido uma educação conservadora, mas acho que a maioria simplesmente não teve uma educação de tolerância e igualdade.

Na semana da parada gay de Florianópolis, eu entrevistei a Selma Light — que começou trabalhando como drag quem em uma casa gay da cidade e demorou para assumir sua transexualidade, assunto que encontra ainda mais resistência do que a homossexualidade. A história dela, apesar de obviamente não ter sido fácil, é do tipo que me deixa feliz. Especialmente porque hoje ela conta tudo com um sorriso no rosto. Quando criança, sem se encaixar nem com os meninos nem com as meninas, ela teve uma psicóloga que a ajudou a lidar com o mundo, e até mesmo com seus pais religiosos. Diga-se de passagem, foi a mãe dela que a incentivou a se assumir como mulher muitos anos depois.

É uma pena que muitos adolescentes não tenham o mesmo apoio psicológico. Nem das famílias, que podem ser religiosas ou conservadoras, e talvez nem de profissionais qualificados para tratar o assunto (recentemente conversei com uma psicóloga formada que não sabia a definição de transexual, confundia com trangênero. Que educação é essa?). Não podemos ignorar essas questões. Nem a questão do bullying, seja contra homossexuais ou não, que precisa ser estudada e discutida. Tanto quem sofre quanto quem pratica bullying precisa de apoio, precisa de pais e professores que saibam lidar com isso. As pessoas fazem piadinhas, dizendo que nas gerações passadas não existia isso. Mas existia sim, e a comunidade jovem global formada hoje com a internet parece exacerbar esses problemas, dar mais espaço a eles. É uma coisa cruel.

Lendo os cartões manuscritos que adolescentes mostram um a um em vídeos no YouTube, dá para pensar que aquilo não é motivo para tirar a vida. Algumas coisas podem parecer pequenas. Mas todo mundo lembra como na adolescência tudo parece maior, mais intenso, mais insuportável. Me entristece tanto que esses jovens não puderam envelhecer um pouco para ganhar perspectiva. E que aqueles que causaram sua agonia tenham que aprender com o peso de uma morte sobre as suas costas. Eu realmente queria saber o que passa hoje na cabeça da pessoa que escreveu para Amanda Todd que ela deveria tentar o suicídio de novo, desta vez com sucesso. E eu espero que esse adolescente vá a um bom psicólogo.

A matéria da capa do aliás era justamente sobre a polêmica dos materiais educativos contra homofobia nas escolas. Nem vou entrar no mérito da discussão, já é óbvio que eu acho necessário falar sobre isso. Mas essas medidas são paliativas, é que nem sistema de cotas. Não resolve o problema na raiz. Precisamos aproveitar desde cedo a inocência das crianças que acham que se apaixonar não depende de gênero, ou que diferentes cores de pele são como diferentes cores de cabelo. Precisamos de uma educação que não seja baseada no politicamente correto, naquilo que se pode ou não dizer, e sim em um real sentimento de igualdade. E isso é ingenuidade minha, mas acho que a inocência é bem mais tolerante, e bem menos hipócrita.